Empreendedorismo

Heitor de Vargas Cavalheiro Neto
Professor de Marketing na Link School of Business

A Marca da Vitória: o que aprender com a Nike?

A Marca da Vitória, ou Shoe Dog, no inglês, é divertido e engraçado. Nele, Knight se revela um escritor espirituoso, irônico, dono de uma verve surpreendente

Se você tem um corpo, você é um atleta, Just Do It.

Simples, claro, objetivo e histórico, foi com esse pensamento que a Nike se tornou uma das mais importantes marcas dos últimos dois séculos.

Seu fundador, Phil Knight, hoje com 84 anos, sempre foi avesso aos holofotes e não gostava de aparecer – o que fazia do homem por trás da marca um quase desconhecido.

Finalmente, isso mudou. E a história da Nike e de seu fundador está disponível no livro A Marca da Vitória (Shoe Dog, no título original) que Knight decidiu publicar em 2016.

A esperada obra conta sua própria história e de como criou uma das mais emblemáticas empresas que o capitalismo pariu, cujo símbolo, o swoosh é reconhecido nos quatro cantos do planeta. Ótima leitura.

Um breve resumo da história da Nike

Tudo começa quando Knigth, que cursava a Business School de Stanford, praticava corrida pela equipe de atletismo da universidade e, por isso, achava que entendia de tênis.

O ano era o de 1962 e, em uma de suas últimas aulas do curso de negócios, um seminário sobre empreendedorismo, ele escreveu um trabalho sobre tênis. Este foi o marco que o levou de um interessado pelo assunto a um obsessivo.

A partir daí e até o fim do curso, em todas as suas corridas matinais e momentos livres, o estudante acalentava a ideia de visitar o Japão e trazer para os Estados Unidos uma marca de tênis.

Ter a marca da vitória é assumir riscos

Finalmente, ele propôs para seu pai uma viagem como mochileiro pelo mundo com, claro, uma parada no Japão. Passando por cima dos protestos de sua avó – que, ainda sob efeito da Segunda Guerra Mundial, achava que os japoneses queriam matá-los -, conseguiu.

Esse foi o início desta encantadora história. Knight consegue convencer os japoneses responsáveis pela marca Tiger a representá-los nos Estados Unidos. Com 50 dólares no bolso, começou a vender os tênis importados diretamente do porta-malas de seu carro.

O livro tem seus capítulos nomeados pelo ano em que alguns acontecimentos ocorreram – alguns dos quais mudaram a história do esporte e do comportamento da sociedade.

Entre as anedotas, está a história da sola waffle, desenvolvida por Bill Bowerman, um dos fundadores da marca Nike e treinador de atletismo da universidade de Oregon, estado natal de Knight.

Segundo o autor narra, durante um café da manhã com sua esposa, Bill notou que o formato geométrico da máquina de fazer waffle poderia servir como ideia de solado para um tênis. A sola proporcionaria ao atleta maior tração e um consequente melhor desempenho.

Dito e feito. Bowerman veio a se tornar uma lenda no meio do atletismo americano, conquistando quatro campeonatos nacionais como treinador de atletismo da universidade de Oregon.

Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho

Outra passagem de arrepiar acontece quando Knight, conversando com seus sócios e funcionários, pede licença para ir a uma reunião receber um “maluco” que dizia estar desenvolvendo uma forma de colocar ar dentro dos solados dos tênis.

Acredite: eles estavam a minutos de inventar o Nike Air, tênis que transcendeu a própria categoria e passou a ser uma forma de se expressar de atletas e de cidadãos comuns.

No geral, é ressaltada a importância de ter os atletas próximos da marca, inicialmente com os colegas de faculdade atletas e, posteriormente, com os olímpicos e de alto desempenho. Michael Jordan, André Agassi e Tiger Woods, entre outros, frequentam as páginas do livro e ajudam na construção desse ícone.

Obviamente, os dramas também estão presentes, tanto os profissionais como os pessoais. No primeiro caso, destacam-se as dificuldades no relacionamento com os japoneses da Tiger, a construção do time, o compromisso com os amigos que ajudaram a iniciar a companhia, a perda de algumas amizades que preferiram ir trabalhar na Adidas e todas as alegrias e dissabores envolvidos neste tipo de relacionamento humano estão no livro.

Os dramas pessoais são as passagens mais emocionantes do livro. Seu relacionamento com os pais, como conheceu sua esposa e a relação com os filhos e com os amigos são muito importantes para entender quem é Phil Knight, como ele construiu uma das maiores marcas da história e como todo sucesso do mundo às vezes não trás tudo que precisamos.

O livro é divertido e engraçado. Nele, Knight se revela um escritor espirituoso, irônico, dono de uma verve surpreendente para alguém que projetava uma imagem de tímido. Se você gosta de marketing, inovação, empreendedorismo e propaganda, aperte os cintos e desfrute da leitura. Este livro serve como um mestrado.

Não deixe de ler!